sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Chutney de coentros Globetrotter









A tia Lourdes, tal como a minha mãe (as duas únicas filhas dos meus avós maternos), teve uma educação bastante diferente da que era dada habitualmente às meninas de família. Ambas seguiram do liceu para a universidade e ambas concluiram, brilhantemente, cursos pouco procurados por mulheres, nessa época: Medicina a minha mãe, Belas Artes a tia Lourdes. Filhas de um advogado exigente e de gostos sofisticados - respirara ainda o crepúsculo do fausto proporcionado pelo cacau de São Tomé e Príncipe, vindo da roça da família - do pai receberam essa liberdade e esse desafio: serem autónomas, terem uma profissão. Da minha mãe falarei noutra altura destes apontamentos, hoje a ribalta é da tia Lourdes.
Desde muito cedo revelou talento para o desenho. Depois da escola António Arroio, estudou pintura e escultura em Lisboa e depois no Porto, onde o curso superior era mais conceituado. Foi contemporânea dos maiores nomes das artes plásticas nacionais, hoje considerados grandes mestres. Aluna aplicada e muito elogiada por professores e colegas, pelo traço forte e cheio de personalidade, acabou o curso com notas altíssimas e esperava-a um futuro sorridente no mundo que escolhera e onde se sentia como peixe na água. Praticou em ateliers famosos e tinha amigos divertidos e boémios, apesar do recato a que o seu estatuto e uma sociedade fechada a obrigavam.
Mas a vida trocou-lhe as voltas, como muitas vezes acontece. Ao escritório da Rua de S. Nicolau, na Baixa, onde o meu avô exercia advocacia, foi parar um estagiário muito especial: um goês, brâmane orgulhoso e de olhar penetrante, de seu nome Prabacar Visvambor Canencar (um nome que originou saborosas e infindáveis versões nas bocas por onde passava, na nossa família). Era um de muitos irmãos, todos rapazes, enviados pelos pais para a Europa e Estados Unidos para estudar, o que em Pangim não teriam conseguido fazer com igual sucesso. Ele foi o único que rumou a Portugal, para estudar direito. E a tia Lourdes apaixonou-se por aquele homem diferente, um novo desafio que lhe mudou a vida por completo. Correram o mundo em comissões de serviço dele, como juíz: por África e Ásia, dois anos em cada sítio onde os portugueses tinham posto o pé e a que chamaram seu, séculos antes.
Perdemo-los de vista por muito tempo, mas um dia voltaram. No porão do navio que os trouxe de Timor, uma enorme quantidade de quadros que a tia Lourdes pintara, bebendo nas mil cores e formas exóticas a inspiração daqueles anos de globetrotter. Faria uma grande exposição, quando chegasse a Lisboa. De lá, preparara as coisas e tudo estava a postos. Ainda tinha bons contactos. Mas o desatre aconteceu: o porão inundou-se e a água salgada arruinou as delicadas telas e aguarelas que ansiavam pelas luzes de uma galeria de arte. E já não houve exposição. E, muito pior do que isso, a tia Lourdes nunca mais quis pintar ou esculpir, fosse o que fosse. Começou a dar aulas de desenho e foi uma professora dedicada, por muito tempo. Hoje tem oitenta e seis anos, e continua uma mulher de armas.
Do tio Canencar, que já morreu há muitos anos, guardo na memória as conversas inteligentes que tinha connosco (não tinham filhos, e a sua paciência com crianças era limitada) os livros (muitos deles viajavam sempre com ele, em malas especiais que se transformavam em estantes provisórias, durante as viagens) e a iniciação às delícias da gastronomia goesa, de que era um fervoroso apaixonado. Essa veia de gourmet (também adorava a boa cozinha tradicional portuguesa) valeu-lhe uma cumplicidade com o meu pai que durou toda a vida de ambos. O tio Canencar levava-nos aos melhores restaurantes indianos de Lisboa e ensinava-nos a apreciar cada sabor, cada subtil mistura. Com ele aprendi, por exemplo, que um bom caril não é feito apenas com aquele pó amarelo que conhecemos (e onde pensamos que está tudo o que é preciso), mas com um lote de ingredientes frescos, escolhidos a dedo e em medidas sábias, que fazem desse prato uma especialidade requintadíssima. Cada família tem o seu segredo para o "caril", tal como acontece por cá com as receitas conventuais, por exemplo.
Além de muito condimentada, a cozinha indiana é enriquecida com chutneys e achards que potenciam a riqueza dos pratos. São, geralmente, de confecção muito simples, mas é nas proporções dos ingredientes que está toda a diferença. Com o tempo, a tia Lourdes aprendeu a fazê-los na perfeição. Um deles - um chutney de coentros - é a receita que aqui deixo hoje.
1 bom molho de coentros; 2 colheres de sopa de coco ralado; 1 pimento verde cortado aos bocados; 1 bocado de gengibre ralado (mais ou menos 1 colher de sopa); 2 dentes de alho; 1 cebola pequena; sumo de 1 limão; sal qb; 1 colher de café de açucar

Moer tudo com o pilão ou na picadora, até obter uma pasta boa para barrar. Guardar em frasco de vidro, de preferência no frigorífico (depois de encetar o frasco).
Manter fresco.
Nota: Este chutney é excelente para acompanhar carnes gordas, ou mesmo peixe. É uma óptima alternativa ao tradicional chutney de manga verde.


15 comentários:

adam brown disse...

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Sofia disse...

Ainda bem que os pastéis estão de volta! Por momentos achei que te tinhas convertido aos travesseiros e que já não passavas por aqui! ;)

Também eu me rendi aos encantos da comida indiana e, aos poucos, lá vou aprendendo os segredos que as tias do Pedro me vão ensinando. Nem imaginas como me sabe bem comer a 25 de Dezembro o caril de lentilhas, o chacuti de galinha e os famosos chouriços picantes, que só se percebe a fama depois de provar! Sabe bem variar do peru e do bacalhau! Aos poucos o paladar vai deixando de queimar e a noção de muito picante vai-se perdendo... Adoro comer 'monhezadas' e vou ver se para o ano me começo a aperfeiçoar nessas artes!

Beijinhos

james disse...

Mais uma delícia de texto!

Prazer que 2007 me revelou.

Obrigado.

Um abraço e feliz ano novo!

RAA disse...

Saborosíssimo, como sempre, vizinha. Bom ano. (A música também é óptima, aliás.)

marta disse...

Um maravilhoso texto!

e eu que gosto tanto de chutneys.

Vou experimentar já este fim de semana.

Obrigado

av disse...

Olá Marta, experimenta que é facílimo de fazer. E óptimo.

James, obrigada. Vou tentar escrever mais vezes, prometo.

Vizinho, obrigada! Bom ano para si também, e boa música sempre.

Sofia... monhezadas???? Deixa que o Pedro te oiça dizer isso...

Beijos a todos

Huckleberry Friend disse...

Lol... Ana, descansa, que o termo monhezadas está há muito consagrado no dicionário familiar.
Usam-no tias e primos, só a Avó é que não gostava (e à frente dela evitávamos usá-lo). Mas dizemo-lo com muito carinho pelas origens (Goa deu-me três dos oito bisavós). Todos adoramos cozinhar e degustar as ditas monhezadas e, ainda mais, contaminar os que vão entrando para a família. Chegaste a provar o orvém da Sofia? Beijos!

av disse...

Lol, ainda bem... mas a mim também não me dá jeito a palavra.
E quero provar esse petisco da Sofia, claro!
Beijos

SC disse...

Cheguei ao seu blog via FALABARATA e aproveitei ser domingo para o ler todo. A sua escrita é viciante. Gostei muito das histórias que tornam as receitas (ainda mais) apetitosas. A questão agora, egoísta q.b., é: quando volta?! :)

av disse...

Olá SC,
Estou sempre a prometer actualizar este blog-caracol, mas não tem sido possível. Sou preguiçosa, admito. Vou tentar, mais uma vez, corresponder às palavras simpáticas que todos me têm deixado aqui.
Um beijinho

JG disse...

Estas tuas histórias tão saborosas lidas a estas horas da madrugada, fazem-me cá uma fome que vou ter que ir à cozinha rapar os tachos :)))

Ai, ai!!!!

musqueteira disse...

... é uma arte tão grande - cozinhar- como pintar um quadro! e porque pinto e cozinho... virei mais vezes por aqui. bom fim de semana;)

av disse...

Musqueteira, gostei muito do seu Lapis Exilis. Já o linkei lá no Porta do Vento. Volte sempre e obrigada. Bom fim de semana

Sofia disse...

Olha lá... estás há espera da páscoa porque a tua próxima receita é de amêndoas ou de cabrito... ou tens andado esquecida deste pastel? Não está cá nada...

LOL
beijinhos

Patanisca disse...

Uma história triste mas, para quem a lê, com final feliz: o chutney de coentros que vou já copiar para o meu caderninho de receitas.

Adoro comida boa, mas só há muito pouco tempo me iniciei nas artes e práticas da cozinha. (A vida não se escolhe, é-nos dada. Depois, cabe-nos fazer o que quisermos dela).

No meu panteão culinário pontifica a cozinha indiana (e goesa, que penso não ser a mesma coisa). E em todos os pratos gosto sempre de uns acompanhamentos bem apaladados (picantes, de preferência).

Obrigada, amiga.

Um beijinho.